
Meus Caros Amigos.
Atordoado, com uma dor na cabeça violenta.
Nos acidentes procuramos sair o quanto antes do carro.
Levantando, ouço um carro reduzindo, travando os pneus.
Piero Gancia pula da Alfa assustado, branco, agarra em mim e fala:
Luizinho, vc. está vivo? Eu vi tudo, Luizinho, vc. está vivo?
Calma Piero, vc. não está me agarrando? Estou vivo!
Tive de acalmar o Gancia, pois quando sofremos acidentes,
estamos centrados na reação, concentrados em, literalmente, sairmos vivos.
Aos que assistem, os 3 segundos de um acidente são assustadores, mas para nós parecem horas, que ficam gravadas eternamente em nossas memórias.
Não me lembro qual prova de longa duração foi, depois com calma me certifico,
mas na página de Referências Blibliográficas de meu Livro, que estamos, como dizem hj. em fases finais de acabamento, poderão constatar.
Mas foi assim:
As Equipes concorrentes alegavam nos bastidores, que nós da Willys sob o comando do Greco, andávamos com as Berlinettes fora do regulamento, pois não era um carro de passeio, embora com potência muito inferior a muitos que corriam juntos.
A Diretoria então decidiu e comunicou ao Greco, para corrermos com os Gordini 1.093, pois a imprensa iria dar destaque e para dar um tapa com luva de pelica nos que acusavam.
Outros tinham Berlinettes, equipes particulares, entre os quais Avallone.
Com sua astúcia, Avallone pediu a Diretoria da Willys um conjunto de motor e cambio emprestados, para correr, equipamento reserva da Equipe Willys.
Só que nosso tanque era de 30 e poucos litros, e Avallone colocou no dele, de mais ou menos 60 litros, desbalanceando o carro, tirando o centro de gravidade, a frente da Berlinette embicava no chão.
Um dia antes da prova, em um treino, Avallone discutindo com Greco, que o “carro não andava”, e lá pelas tantas Greco me chama e ordena: Vai lá, dá 4 voltas com isso e mostra para ele que o carro anda!
Entrei na pista, sentindo o carro, pois já sabíamos da “adaptação”, no final do retão falei comigo mesmo, “Que motor, empurra mais que os nossos? Que aconteceu aqui?”. Pois o conjunto foi lacrado, Avallone não alterou nada, ao menos foi o dito.
Devagar, contornei a ferradura fui sentindo a maneabilidade da Berlinette, acelerei fundo novamente na reta oposta e segui “sentindo o balanceamento”.
Desci a reta de chegada mirando a curva 1, a contornei flat e na 2........... .
Quando a Berlinette estava se inclinando, contornando a curva 2, o para-lamas dianteiro direito travou a roda, aliviei ¼ de acelerador, com calma girei o volante pouco a esquerda, para simplesmente equilibrar e descer a reta.
Nessas frações de segundo, as reações da física são impressionantes, pois o carro entrou em pêndulo e após o segurar com as duas rodas esquerdas no “mato”, não esta grama que existe hj. voltando para a pista havia uma valeta de drenagem , que descia para o início da curva do Sol.
O carro embicou, minha cabeça bateu no quebra-sol e a Berlinette girando, fui arremessado para fora, enquanto, depois me falaram, a porta voava em sentido onde era a reta oposta.
Não havia cinto de segurança, pois na certa eu teria morrido.
Levantei em meio às árvores que existiam, a mancha verde do capim, mesmo depois de lavar dezenas de vezes o macacão, não saiu.
Acalmei o Piero, todos dos boxes correndo para o local, pois pensavam que era Eu, e não a porta que havia voado.
Lógico que o Avallone ficou sem a Berlinette para a prova, mas a Willys, com responsabilidade, usou o acidente como tecnologia e introduziu mudanças na estrutura do carro de passeio, alguns rodam hoje.
As pistas de Automobilismo, são um laboratório para a Indústria, e nós Pilotos, os bonecos que vcs. depois assistem nos falados, testes de impacto.
Minutos depois do acidente, vivo e inteiro, daí sim assustado, pensei no Avallone que não teria mais a Berlinette para correr, e conhecendo o Greco, nunca soube que se passou , conhecendo os dois......., nem quero imaginar!
Bird e Eu, enfim, todos que correram juntos ao Greco, na Equipe Vemag do Lettry, do Paulo da Dacon tínhamos de acelerar, mas sempre tivemos o profissionalismo, que muitos não usam hoje em suas Equipes.
Um Abraço
Luiz Pereira Bueno